Como incentivar seu filho a ler na pré-adolescência e adolescência; especialistas e pais dão dicas práticas | Finance Journal
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Dúvidas da semana 🤷♀️🤷
"Como podemos introduzir leitura e novos conhecimentos para um adolescente que só se interessa por futebol?"
"Minha filha é pré-adolescente (10 anos) e não consigo fazer com que ela leia livros por conta própria. Como posso ajudá-la a perceber que ler é muito legal?"
Ler, hoje, é quase um ato de resistência. Nunca houve tantas distrações competindo pela atenção de crianças e adolescentes. Vídeos curtos, jogos, mensagens, notificações que não param de chegar. E a pergunta que fica é: como um livro pode vencer essa batalha?
Lanço aqui uma primeira constatação: o exemplo arrasta. Assim como devemos evitar ficar no smartphone o tempo todo na frente deles, é altamente recomendável que eles nos vejam lendo. Ter um livro por perto, abrir um livro, comentar uma história, tudo isso comunica que a leitura tem um lugar importante nas nossas vidas.
Nesta semana, além de ouvirmos três ótimos especialistas, também trazemos os depoimentos de um pai e de uma mãe de adolescentes que nos contam o que tem funcionado em suas casas, quando o tema é leitura.
Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente ao final desta reportagem. Muitas vezes, a sua inquietação é também a de outros pais e mães que estão tentando acertar todos os dias.
Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫
Marcela Levy - Advogada e criadora do perfil @mae_le_pra_mim no Instagram e do Podcast Conversas em Capítulos. Mãe dos gêmeos Dan e Sofia, de 7 anos
📖 Uma coisa que percebi cedo é que crianças e adolescentes repetem o que os pais fazem. Quando meus filhos de 7 anos eram menores, eu lia muito no iPad, no Kindle, e me dei conta de que eles estavam vendo apenas uma tela na minha mão. Então passei a ler só livro de papel. Hoje eles sabem que, por exemplo, sábado de manhã é meu momento de leitura, e naturalmente criaram o momento deles também. Muitas vezes perguntam sobre a história que estou lendo. A história chama.
📘 Eu me lembro que tinha uma bibliotecária ótima na minha escola. Um dia, aos 12 anos, ela me entregou o livro infantojuvenil “Ei, Deus, está aí? Sou eu, a Margaret”, da Judy Blume, publicado no Brasil pela Rocco. Era uma menina passando exatamente pela fase da puberdade, falando de menstruação, do corpo mudando. Aquilo mudou a minha vida. Eu me vi na personagem e entendi que a literatura era um lugar onde eu podia me encontrar e processar sentimentos.
📊 Existe um fenômeno chamado “decline by nine”, que mostra que por volta dos 9 anos há uma queda na produção literária para essa faixa etária. Escrever para esse público é mais difícil. O livro ilustrado atravessa o tempo com mais facilidade. Já o livro para pré-adolescente fica datado rápido, porque linguagem, gírias e interesses mudam. Além disso, aos 9 ou 10 anos a criança pode ainda ser muito infantil ou já estar bem próxima da adolescência. É uma fase desafiadora.
📵 Faço parte do movimento Desconecta. A proposta é que as famílias façam um pacto para não dar celular antes dos 14 anos e só permitir redes sociais a partir dos 16. Eu acredito nisso porque as telas competem diretamente com o tempo da leitura.
⏰ Para mim, leitura é rotina. Assim como exercício físico ou alimentação saudável. Quando você interrompe, é mais difícil voltar. Em casa, instituímos horários. Por exemplo, depois do dever e do banho, cada um senta para ler seu livro. Quanto mais você lê, mais quer ler. A leitura vira hábito.
🔊 E eu acredito muito na leitura em voz alta. Existe a ideia de que, quando a criança aprende a ler sozinha, não precisamos mais ler para ela. Acho isso um equívoco enorme: a leitura em voz alta é um momento de afeto e conexão. Quem ouve exercita a imaginação, cria imagens na cabeça, se apaixona pela história. Na minha casa, sempre há um momento à noite em que eu leio para eles. Com adolescentes, dá para ir ainda mais fundo, ajudar na compreensão, fazer perguntas, mediar a leitura.
📚 Eu também acredito no programa de ir à livraria. Mas é importante dizer: há muitos livros sendo produzidos, e nem todos são de qualidade. A criança tende a escolher pela capa mais chamativa, mais comercial. E o adulto tende a vetar. Eu faço diferente. Digo que podem escolher o que quiserem, mas que também vamos levar um livro que eu escolho. Assim, eles leem algo mais leve e também entram em contato com algo mais profundo, com mediação.
🧠 Outro ponto importante são os temas de interesse. Se a criança é obcecada por Star Wars, futebol, ciência ou animais, existem enciclopédias, manuais, livros informativos excelentes. Mesmo que não sejam romances, ajudam a criar o hábito de manusear o livro, integrar a leitura à rotina.
🖼️ E há também as “graphic novels”, livros com muito mais imagem e menos texto, quase como um filme no papel. Para quem tem resistência, é uma porta de entrada maravilhosa. Não é literatura menor. Existem obras profundas nesse formato. O importante é criar vínculo com a leitura.
Cláudia Lamego - Jornalista, mediadora de clubes de leitura e mestranda em Estudos Literários na UFF. Atua na mediação de eventos literários como a Flip e a Bienal do Livro do Rio. Mãe do Francisco, de 17 anos
📚 A minha primeira dica para quem quer estimular a leitura para crianças e adolescentes é frequentar livrarias, feiras de livros, contação de histórias. Ir ao cinema e ver filmes e séries baseados em obras literárias e depois conversar sobre a história. Recentemente, o Oscar para “Ainda estou aqui” despertou a curiosidade de muitos adolescentes e o livro foi adotado em várias escolas. Neste ano, está na lista do vestibular da Uerj.
🏫 Por falar em escola, acompanhar de perto o projeto didático, os livros selecionados a cada ano, o trabalho feito nas bibliotecas, se há estímulo para a leitura no ambiente escolar, se há feiras culturais e participar com entusiasmo. Com a lista dos livros em mãos, conversar com os filhos sobre as escolhas, comprar junto, pegar emprestado, estimular a troca entre os colegas.
🌙 Na faixa de 10 anos, é possível ler junto com a criança, à noite, por exemplo, antes de dormir. Experimentar contar histórias também é muito legal. Quando meu filho tinha essa idade, eu gostava de misturar as histórias dos livros, dos filmes e dos personagens da vida real, como os amigos da escola. Era divertido.
⚽ Se o seu filho gosta de futebol, procure obras que tratem do tema. Ziraldo escreveu histórias do Menino Maluquinho e o futebol, por exemplo. Há livros para adolescentes também sobre os times do coração de cada um, com histórias saborosas, curiosidades. Um bom livreiro pode dar mil recomendações. Tenha sempre um por perto!
✨ O mesmo vale para outros temas que interessem aos pré e adolescentes. Deem liberdade para eles escolherem também, sem julgar. A descoberta da literatura e do que interessa a cada um é fundamental. Mas esteja ao lado para ajudar, ofereça.
📱 Importante frisar que a leitura do mundo se dá também em tablets, celulares, telas. Não demonize o uso, mas controle o tempo. O legal é gostar de ouvir, ler e contar histórias.
Pedro Pacífico - Criador do perfil @Bookster e colunista do GLOBO
📖 Muitas pessoas se perguntam se os adolescentes estão mesmo se afastando da leitura. Para mim, essa percepção é real. Fui um adolescente que se afastou dos livros, numa época em que as telas ainda não eram um concorrente tão forte. Mesmo sem celular, eu já sentia essa mudança de interesses, que era uma vontade de independência com uma resistência ao que parecia obrigação.
📚 A leitura, muitas vezes, já cresce na infância com cara de dever. “Agora você vai ficar 30 minutos lendo.” Como se fosse castigo ou algo negativo. Soma-se a isso a escola, com listas obrigatórias, provas e vestibular. E a gente deixa de ensinar um aspecto essencial: leitura também é entretenimento, assim como ver um filme ou uma série.
🎭 Acredito que as escolas deveriam ter aula de literatura e aula de leitura por prazer. Tudo bem ler para a prova, conhecer livros importantes, mas o jovem precisa experimentar escolher um livro por conta própria, sobre um tema que realmente o interesse, e ler sem compromisso.
📱Hoje, além desse histórico de cobrança, temos as telas. E elas não prejudicam só os adolescentes, mas também os adultos. Roubam o tempo que poderia ser usado para ler e afetam algo ainda mais importante: a nossa capacidade de concentração e foco. Estamos cada vez mais acostumados a conteúdos rápidos e cheios de estímulos. Transferir essa lógica para um livro, que exige paciência e um ritmo mais lento, é um desafio enorme.
🏬 O mais importante, então, é associar a leitura ao entretenimento e ao exemplo. Ler junto, conversar sobre a história, combinar de pais e filhos lerem o mesmo livro e depois trocarem impressões. Transformar esse momento em algo prazeroso. Inclusive o momento de ir a livrarias, bibliotecas ou sebos.
⏳ Além disso, ler vai exigir cada vez mais insistência e paciência. Precisamos ensinar os jovens a importância do tempo mais devagar, até do tédio. Algo que nós, adultos, também estamos esquecendo. A leitura pode ser um treino, uma prática que fortalece a atenção.
📲 Ao mesmo tempo, existe um movimento interessante nas redes sociais. Muitos jovens encontraram ali um nicho de pessoas falando sobre livros, como no BookTok (uma comunidade dentro do TikTok voltada para literatura, onde usuários criam vídeos curtos de resenhas, recomendações e dicas de leitura), e isso tem trazido leitores de volta. A leitura também pode ocupar esse espaço onde eles já buscam diversão.
Aqui em casa é assim... 🏠 💬 Um pai e uma mãe relatam suas experiências
Alexandre Freeland, jornalista e pai de uma adolescente de 14 anos
"Eu tenho uma nova autora favorita. E eu nunca li um livro (inteiro) dela.
A nova-iorquina Freida McFadden é a estrela da literatura pop que produz fenômenos de venda como 'A Empregada'. E, na minha história pessoal, Freida provocou um impacto ao qual serei eternamente grato: despertou de novo o interesse pela leitura em minha filha de 14 anos.
Dá para entender esse mundo de estímulos e dispersão vivido pelos adolescentes. Focar e sustentar a atenção, quando tudo ao redor parece te oferecer uma doce recompensa após míseros segundos de impulsos, não é tarefa fácil.
Mas Freida McFadden consegue gerar esse efeito em teens (e adultos) ao redor do globo. Essa médica especializada em lesões cerebrais, que procura manter sua carreira original à parte da escrita, encontrou a fórmula para fazer com que seus suspenses tragam de volta o prazer daquele ritual de simplesmente parar e ler.
Mas isso não fica no mundo das letras apenas. Com o sucesso no cinema, 'A Empregada' proporcionou novas conversas aqui em casa: como se adapta uma obra, o que um roteirista e um diretor podem mudar no original, como mexer na história e nos personagens permanecendo fiel à essência.
Este ano, no roteiro de livros da escola, tem 'O Auto da Compadecida'. Já programei reproduzir esse debate: ler o livro e confrontar com o filme. Do nosso jeito, vamos misturar literatura com cinema, McFadden com Suassuna, Nova Iorque com Noviorque. Vai dar samba! E também rock e maracatu, provavelmente".
"'O que você fez pro seu filho ler tanto?' Numa época em que crianças e adolescentes já estão, como nós, viciados em telas, sempre me perguntam.
Vinícius é assim desde que se alfabetizou, com 4 pra 5 anos. Segui todos os manuais dos bebês, desde os livrinhos em preto e branco à leitura do ritual do sono, todas as noites. Mas conheço muita gente que fez igualzinho, e o filho não construiu o hábito.
No nosso caso, acho que o fato de eu ler bastante ajuda. O pai também é leitor. A irmã, a avó. Então a dica que dou pra quem quer construir o hábito é: faça da presença do livro uma constante. Vai pegar metrô? Leva. Antessala de médico? Leva. Praia? Também.
Compre gibis e quadrinhos, pesquise títulos adequados, faça da ida a sebos e livrarias um programa gostoso. Ler não pode ser imposição, e sim, um prazer.
Com um livro na bolsa, nunca estamos sozinhos, eu sempre lhe disse. E, a regra de ouro: adie ao máximo o primeiro celular! (a hora dele ainda não chegou…)
DESCOMPLICA. Em resumo, o que dizem os especialistas e os cuidadores
📖 Exemplo: Crianças e adolescentes se inspiram no que veem. Quando os adultos leem, comentam livros e mantêm a leitura presente no cotidiano, mostram que ler é parte da vida, não uma obrigação escolar.
⚽ Interesse: Comece pelo que realmente encanta seu filho, seja futebol, suspense, quadrinhos ou qualquer outro tema. Toda leitura é uma porta de entrada e pode abrir caminho para outras descobertas.
🏠 Presença: Tenha sempre livros por perto e leve um na bolsa. Momentos de espera, como consultas, viagens ou idas à praia, podem se transformar em oportunidades naturais de leitura.
🎬 Conexão: Aproveite filmes, séries e temas discutidos na escola para criar pontes com os livros. Comparar uma história com sua adaptação ou conversar sobre personagens torna a leitura mais viva e interessante.
✨ Liberdade: Permita que crianças e adolescentes escolham o que querem ler, sem julgamentos. O prazer nasce da autonomia, e o apoio dos adultos ajuda a transformar curiosidade em hábito.
Fonte: O GLobo
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